Postado por: Raquel Borsari em 09/mar/2018 |

Monsenhor Raul se manifesta sobre polêmica de estacionamento na praça da Catedral

Em um trecho do texto, consta: "A Praça da Catedral é da Igreja!"

Um artigo de Monsenhor Raul Motta de Oliveira, publicado nesta semana, expressa a opinião e coloca o parecer dele a respeito do assunto que gera polêmica na cidade.

Confira:

“Ao querido Povo de Caratinga

O que atinge o povo de Caratinga, a mim atinge. Sou caratinguense. Nasci em 1929, em Inhapim, quando era distrito de Caratinga (ano que vem, querendo Deus, estarei completando 90 anos). Por isso nunca recebi título de Cidadão Honorário de Caratinga, porque já o sou de nascimento.

Este ano, celebro, se Deus quiser, meu jubileu sacerdotal de diamante (7 de dezembro). Serão 60 anos residindo e trabalhando em Caratinga, como Padre. Amo Caratinga e todo o povo maravilhoso que aqui reside. Por isso, tudo o que atinge a cidade e o povo de Caratinga, atinge a mim também.

Temos atualmente, como pároco da Catedral, o nosso bondoso Padre Moacir Ramos Nogueira, que já pode ser considerado benfeitor de Caratinga, pelo prédio do Centro Pastoral, com cinco andares, que está construindo atrás da Catedral, há dois anos, e já em fase de acabamento!

Pois bem. Conforme matéria divulgada pela Rádio Cidade, dia 26 de fevereiro último, Padre Moacir está sendo pressionado pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural de Caratinga, para fechar a Praça da Catedral a automóveis, alegando o piso estar danificado.

Dr. Humberto Luiz Salustiano Filho, grande advogado, de cuja Família sou muito amigo, tem se comunicado com Padre Moacir, declarando-lhe com insistência que nem a Praça da Catedral, nem o terreno onde está construída a Catedral pertencem à Igreja, por não terem a Escritura deles.

Reconhecemos que o piso da Praça da Catedral está muito estragado, precisando de uma restauração urgente, mas, daí a afirmar que a Praça não é da Igreja são outros quinhentos. Vejamos.

Patrimônio de São João Batista do Caratinga

Nossos maiores historiadores: Dr. Lázaro Denizart do Val (“Cronologia da Região do Caratinga”, página 50), Dr. Monir Ali Saygli (“História de Caratinga”, 1ª Edição, página 22) e Pe. Othon Fernandes Loures (“Diocese de Caratinga, Documentos para a sua História – 1840-1920”, páginas 39 e 57) contam-nos que João Caetano do Nascimento, João Antônio de Oliveira e João José da Silva, chegando a esta localidade, dia 23 de junho de 1848, festejaram o dia de São João Batista com uma grande fogueira e, nesse mesmo dia, ofereceram uma posse para patrimônio desse Santo, que é a atual cidade de Caratinga.

O Dr. Américo Leão, em 1897, em vez de três, fala de um quarto João, doador (Pe. Othon, livro citado, p. 123), que o Munir diz ser João Carlos da Cunha.

O Coronel Antônio Pereira dos Santos Rezende, que residia em Caratinga desde 1875, nos informa também (em 1895) que João Caetano do Nascimento, João Antônio e João de tal, em dia de São João, reuniram-se na barra do Córrego São João (hoje, atrás do Edifício Maria Lina, bem no centro da cidade), e fizeram doação para patrimônio da Capela, que se edificaria dedicada a São João Batista, podendo calcular-se o patrimônio em duas sesmarias, ou seja oitenta e tantos alqueires (Pe. Othon, p. 102-104).

É bom lembrar que uma grande parte das localidades do Brasil foi iniciada com a doação do terreno ao santo padroeiro. O povo todo respeitava esses limites. O terreno às vezes, era adquirido por fiéis e doado ao Santo, como é o caso de Santa Bárbara do Leste (Ver meu livro: “Santa Bárbara do Leste, 1974-1979”, página 8). O Padre Luiz Augusto Paes Barreto, SDN, que era advogado, fez um volumoso processo, na década de 1960, provando que toda o terreno da cidade de Manhumirim era propriedade da Igreja.

A Câmara Municipal de Manhuaçu, a que nós pertencíamos e, depois, a Câmara Municipal de Caratinga, desde 1890, autorizavam o Conselho Distrital a fazer aforamentos dos terrenos do Patrimônio (Pe. Othon, p. 100). Foi uma usurpação dos bens da Igreja! Consultado, o Dr. Virgílio Martins de Mello Franco, dia 25-2-1895, responde, de Ouro Preto: “Se os bens constituem o patrimônio da freguesia, só a mesma freguesia é que pode regular seu uso entre os moradores, aforando-os ou não. A Câmara Municipal não pode fazê-lo, porque não são bens municipais”.
(Freguesia era o nome que se dava às Paróquias. Câmara Municipal não é aqui a Câmara dos Vereadores. Equivalia à Prefeitura. O Presidente da Câmara era o Prefeito da cidade).

Consta que os Joãos passaram uma escritura particular de sua doação a São João Batista. E que esse documento desapareceu, mas que esse lugar sempre foi respeitado como patrimônio pertencente a São João Batista (Pe. Othon, p 123).
Sendo a igrejinha de São João muito pequena para abrigar o povo da crescente localidade, Pe. Maximiano João da Cruz, nosso primeiro vigário, organizou uma comissão para a construção da nova Matriz. Dia 20/6/1880, essa comissão fez o contrato da construção da nova igreja matriz, no Largo da Barreira (hoje Praça Cesário Alvim). Essa igreja perdurou até a década de 1930, já como Catedral, desde 1915, sendo substituída pela atual Catedral de São João Batista (1935), construída por Monsenhor Aristides Rocha.

Encerrando o capítulo sobre o Patrimônio de São João do Caratinga, Padre Othon nos diz: “A Igreja não pôde ou não quis continuar a disputa com a Câmara. Foi melhor assim. Evitou-se muito sofrimento para os responsáveis pela Igreja. Sua missão principal não é esta” (p. 124).
Fica a pergunta: Já que esse terreno todo pertence ao Patrimônio de São João Batista, fato que era reconhecido por toda a população, Padre Maximiano teria necessidade de pedir autorização à Câmara Municipal, para construir a Matriz ali no Largo da Barreira, que fazia parte do Patrimônio de São João? Padre Maximiano não pensou em fazer Escritura daquele terreno, pois ele já era da Igreja. Por isso, de fato, até hoje, a Catedral não tem a Escritura do terreno onde ela está construída. Mas nem por isso ele deixou de ser da Igreja.

A atual Praça da Catedral foi construída pela Paróquia

No período em que fui Pároco da Catedral de São João Batista (1987-2004), dada a situação crítica da igreja, começando a cair partes do teto e das paredes, vi-me obrigado a empreender nela uma grande reforma.

A Comissão da Reforma e Embelezamento da Catedral, que tomou posse dia 10-8-1989, era assim constituída: Eu era o Diretor; Dr. José de Assis Costa (Vice-Diretor); Dr. José Paulo Corrêa de Moura, 1º Secretário, auxiliado por sua esposa, Dª Yêda; Dr. José Aylton de Mattos, 2º Secretário; João Carlos de Oliveira, 1º Tesoureiro; José Romero Carli, 2º Tesoureiro; Prof. Giancarlo Laghi, Diretor Artístico; Humberto Luiz Salustiano Costa, Diretor das Comunicações e Divulgação; Geraldo Araújo, representante da Prefeitura Municipal; e, da Associação de Engenheiros, Dr. Rinaldo Grossi, Dr. William Félix Ribeiro, Sr. Marco Antônio Obolari e Dr. João Bosco Pessini. Esta Comissão se manteve, com algumas poucas mudanças, até o final da reforma. Todos da Comissão foram de acordo em começar os trabalhos pela escadaria da frente. O Pároco declarou que havia em caixa 30.000 Cruzados Novos, equivalentes a 12.743 Dólares.

Dia 5 de setembro de 1989, a Comissão se reuniu com o Prefeito Municipal, Dr. Eduardo Daladier Pereira. Foi-lhe apresentado o projeto da escadaria, com a proposta de fechar a passagem de carros em frente à Catedral e fazer-se o calçamento com pedras portuguesas. As obras da Reforma foram iniciadas dia 7/3/1990, com a escadaria da frente.

Compramos as pedras portuguesas, em Sete Lagoas: 100 toneladas. A Viação Rio Doce doou o frete. No final de 1991, foi fechado o trânsito na frente da Catedral e, em 1992, foi realizado o calçamento com as pedras portuguesas. Na foto que apresentamos, vê-se o Professor Giancarlo orientando o José Geraldo, na confecção dos círculos com desenhos geométricos e rosáceas, com pedras portuguesas coloridas. Também em 1992, o Sr. Sebastião Manoel Pereira (Tuta), que estava fundindo as 83 rosáceas para a Catedral, fundiu e assentou 16 colunas, no estilo das existentes na Catedral, para impedir a entrada de carros na sua Praça.

A Praça da Catedral poderia ser Estacionamento?

Não faltaram opiniões para se fazer da Praça da Catedral um Estacionamento para veículos, durante a semana e, assim, ter alguma renda para as despesas da Paróquia.

Se o fizéssemos, não seríamos os únicos. A praça da Catedral da Boa Viagem, em BH, tem o seu estacionamento pago. Também no centro de BH, a Igreja São José, fora dos horários de missa, recebe pagamento pelos carros ali estacionados. O mesmo se diz da Catedral de Juiz de Fora, na sua grande praça em frente.

Nem eu, nem os Párocos que me sucederam, aceitamos aquelas propostas, preferindo deixar a Praça livre e, apenas nas Celebrações religiosas, abri-la para os fiéis.

A Praça da Catedral é da Igreja!

Após feitas estas colocações, para vocês compreenderem tudo o que aconteceu na história da Catedral de São João Batista, quero encerrar, reafirmando o que eu disse no título: A Praça da Catedral é da Igreja! Bem como o terreno, onde está construído o nosso cartão de visitas, a Catedral de São João Batista! O terreno da Catedral e a Praça da Catedral são da Igreja! É o pouquinho que nos restou dos 80 alqueires de terra doados a São João Batista pelos fundadores de Caratinga, em 1848! E ainda nos querem tirá-lo!”

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