Postado por: Raquel Borsari em 11/mar/2014 |

Repressão da Mulher

Com a psicóloga Eneide Caetano

A espécie humana nos primórdios da civilização, passoupelas culturas de coleta e caça aos peque­nos animais. As relações entre homens e mulheres eram mais fluidas e nesses grupos, o princípio masculino e o feminino governam o mundo juntos. Nas sociedades de caça aos grandes animais, que sucedem a essas mais primitivas, em que a força física é essencial, é que se inicia a supremacia masculina.A mulher era considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado pelos deuses de reproduzir a espécie, porque pode dar a vida, ajudar a fertilidade da terra e dos animais.Ao contrário da mulher, que possuía o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando.

Quando se inicia a caça sistemática aos grandes animais,começam a se instalar a superioridade masculina e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Começa a se romper a harmonia que ligava a espécie humana à natureza.

O homem começa a dominar a sua função biológica reprodutora, e também controlar a sexualidade feminina.A mulher passa a ser ”propriedade” do homem e a herança se transmite através da descendência masculina. Nessa época, o homem já tinha aprendido a fundir metais e à medida que a tecnologia se aperfeiçoa, começam a seremfabricados armas e instrumentos que permitem cultivar melhor a terra(o arado, por exemplo).
Começam a se estabelecer as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os impérios. As sociedades, então, se tor­nam patriarcais. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens e ficam, então, reduzidas ao âmbito doméstico. A dependência econômica da mulher, por sua vez, causa, no decorrer das gerações, uma sub­missão psicológica que dura até hoje. Na divisão entre os universos masculinos e femininos, ocorre também a cisão entresexo e afeto, entre corpo e alma, e de todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e da emoção, das classes.

O trabalhoescraviza o homem e por isso o homem escraviza a mulher. A relação homem-mulher-natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. Daí em diante, a mulher será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho.
De agora em diante, poder, competitividade, conhecimento, controle, manipulação, abstração e violência vem juntos. É preciso precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de inter­ferir nos processos decisórios, fazer com que ela introjete uma ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao homem. E ela passa a se ver com os olhos do homem, isto é, sua identidade não está mais nela mesma e sim em outro.

Na Idade Média, a situação da mulher é muito confusa. Contudo, ela ocupa lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra, a condição das mulheres floresce, elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura.

Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração.  Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda mais tarde elas vieram a representar uma ameaça, participaram das revoltas camponesas que precederam a centralização dos feudos.

O sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com métodos políticos e ideológicos mais modernos. A noção de pátria aparece, a religião católica e mais tarde a protestante, contribuem de maneira decisiva para essa centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e assassinando em massa aqueles que eram julga­dos heréticos ou bruxos, em sua maioria, mulheres. Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade.

Quando cessou a caça às “bruxas”, no século XVIII, houve grande transformação da condição feminina. A sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, reduzem-se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente introjetados por elas.
Os movimentos de protestosse fortaleceram,tendo início na Revolução Francesa e com mais ênfase no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e Revolução Industrial, quando o deslocamento dos homens para o exército acarretou a inserção da mulher no mercado de trabalho, a fim de substitui-los.Após esses acontecimentos, o movimento tomou força e chegou aos Estados Unidos.Conquistar a igualdade e a justiça, esses são alguns dos objetivos que as mulhereslutaram para alcançar. Luta essa que começou há muito tempo e que não tem prazo para acabar.

A mulher submissa, tratada como objeto, o “sexo frágil”, está cada vez deixando de existir, dando lugar à mulher batalhadora, independente, trabalhadora, ciente de seus direitos perante a sociedade. Ela vem derrubando tabus, revolucionando tradições, marcando presença em lugares antes restritos somente aos homens.

 

Muitas conquistas foram obtidas pelas mulheres:

– o direito ao trabalho fora do lar e entrar no mercado de trabalho;

– o direito ao voto; nos esportes; divórcio;

– poder ser eleita para o governo; chega a cargos executivos; cursar universidade.

– evitar a gravidez (com contraceptivos);

– usar calças compridas;

– a mulher casada passa a ter os mesmos direitos do marido, é livre para adotar ou não o sobrenome do marido;

– recebe salários igual ou superior aos homens;

O arquétipo da mulher independente, altamente competente é geralmente difundido nas classes média e alta, o que revela que um dos principais fatores que possibilitam a emancipação é a segurança financeira. Economicamente garantida, a mulher pode se sentir à vontade para ousar atitudes consideradas socialmente reprováveis: viajar sozinha, ter um emprego que a realize profissionalmente ou mesmo levar uma vida sexual independente, porem, essa facilidade pode encobrir, mas não abolir a discriminação.

A mulher começa a mostrar que tem tanta capacidade quanto o homem, através de sua competência, criatividade, maneira de encarar os desafios.

Embora persistam incertezas e desacordos, por isso não se possa falar ainda numa emancipação plena, a não ser num ou noutro setor, contudo tem havido progresso quanto a posição econômica, social, política, intelectual, artística, técnica, científicae a mulher hoje pode comemorar muitas vitórias!

As mulheres hoje não necessitam apenas ser homenageadas com flores, discurso evasivo ou exaltadas por seu sexo, é necessário o fim da discriminação, da violência como também, consideração por suas qualidades, reconhecimento e respeito aos fatores biológicos e valores culturais, que compõem o universo feminino. E tudo isto dentro da própria mulher, que ainda mantém uma atitude ambivalente ante seu ideal de emancipação.

As mulheres hoje romperam dois grandes tabus que causaram a morte das feiticeiras na Idade Média: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão, se libertando do controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado, os dois pilares da exploração feminina.
Assim, hoje as bruxas são legião no século XXI e são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado e no mundo masculino, os valores femininos, resgatando o prazer, a solidariedade, a não competição, a união com a natureza.

 

 




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